Notícia

ANÁLISE CLIMÁTICA DO DIA 01/06/2024
Eu, Mauro Costa Beber, estudo o tempo e o clima desde outubro de
2016, com muitos dados do clima, onde observo dados estatísticos de
precipitação, temperatura, produtividade, produção de soja, trigo e milho de
vários locais do mundo.
Eu estou a mais de cinco anos publicando uma tendência do tempo e do
clima, agora também de produção correlacionados com as anomalias de
temperatura dos oceanos. Então com dados de 34 anos, em uma planilha do
Excel, eu vejo o que aconteceu nos anos do passado, quando as temperaturas
dos oceanos estavam parecidas com as de agora.
Esse estudo mostra uma tendência climática, que é a da maior
probabilidade estatística do que aconteceu nos anos parecidos do passado e
que em 80% dos anos se repete. Para uma tendência a longo prazo uso
estatística e eu também coloco a previsão dos maiores modelos climáticos
mundiais, que erram muito e mudam a cada atualização dificultando o
planejamento.
Penso que devemos nos planejar em cima da maior probabilidade
estatística do que pode acontecer, isso eu chamo de tendência climática por
repetição dos anos mais parecidos do passado. Eu uso esse estudo no
planejamento anual da nossa propriedade.
Essas informações eu todos os meses disponibilizo aqui e as pessoas
podem usar como quiserem também nas decisões do planejamento das suas
propriedades.
No mês de maio aqui na Brasitália, Condor, Rio Grande do sul a
precipitação acumulada foi de 547 mm, sendo que a média do mês de 35 anos
é de 177 mm, nos anos que começaram com um El Niño moderado e forte é
de 250 a 300 mm. É interessante observar que houve muitos dias com chuva
no mês de maio, no total foram 18 dias de chuva, sendo que no dia dois choveu
196 mm e no dia quatro 150 mm. A precipitação do dia dois causou estragos
nas lavouras e a maior enchente dos rios aqui da região dos últimos 30 anos.
A maior precipitação diária de maio foi no ano de 2005 com 203 mm no dia
18/05/2005. Esse mês de maio foi o mês com maior volume de precipitação
acumulada dos últimos 35 anos no estado do Rio grande do Sul. Em alguns
locais a precipitação acumulada do mês passou de 700 mm. Isso é
impressionante.
As temperaturas aqui oscilaram em maio variando de 4,3 graus
(temperatura mínima) no dia 26 a 30,1 graus (temperatura máxima) no dia 5
do mês. Na média o mês foi de temperaturas um pouco abaixo da média devido
aos muitos dias de chuva.
No estado presenciamos um momento difícil em termos climáticos. Um
evento extremo de precipitação ocorreu no nosso estado, com volumes diários
de precipitação muito altos. Ele atingiu quase todo o estado, mas de maneira
mais intensa a região central, nordeste, serra, região dos vales, metropolitana
e margens da Lagoa dos Patos, onde em algumas cidade a soma da precipitação
do mês de maio passou de 700 mm. Muitos estragos em todos os locais, com
danos difíceis de mensurar. Estradas, pontes, residências e lavouras com
grandes danos causados pelo extraordinário volume de precipitação.
Se somarmos as precipitações observando os eventos climáticos do
Pacífico Central, que são chamados de Enos. Separando os anos de junho a
maio onde os eventos climáticos ocorrem nos oceanos e na atmosfera
atingindo o ápice nos meses de dezembro e janeiro, os anos mais chuvosos no
Rio Grande do Sul sempre aconteceram no período de junho a maio nos anos
de El Niño forte. A média de precipitação aqui em Condor dos últimos 35 anos
de junho a maio é de 2.122 mm. Nos anos de El Niño forte é de 2.965 mm, 40%
acima da média. O ano com maior precipitação nesse período foi este de junho
de 2023 até maio de 2024 com o acumulado de 3.793 mm, 79% maior que a
média. O segundo período mais chuvoso foi 1997/1998 com 3.423 mm, 61%
acima da média. Foram os únicos períodos com precipitação acima de 3.000
mm. O período mais seco dos últimos 35 anos foi de junho de 2022 a maio de
2023 com 1.328 mm, 63% da média, ano de La Niña fraca.
Eventos extremos parecidos com este já ocorreram no estado no
passado. Lembro do ano de 1992, quando também ocorreu um evento
climático de El Niño. Naquele ano houve um evento extremo de precipitação
no dia 27 de maio, foi muito parecido com o que ocorreu neste ano no dia 2,
mas naquele ano a faixa atingida foi mais ao norte do que este ano. Em choveu
mais de 400 mm em 36 horas. Naquele evento a BR-285 teve 3 bloqueios entre
Panambi e Ijuí, por passagem de sobre a pista. Foi a única vez que isso ocorreu
desde a sua inauguração no ano de 1970.
Estamos vivendo um momento difícil no estado, onde depois de anos
mais secos, com perdas por estiagens, agora as perdas são por excesso de
chuva. A localização geográfica e de relevo faz o nosso estado ser muito impactado pelo clima.
O El Niño traz o bônus de boas chuvas, mas também o
ônus do excesso, que tem grande impacto no estado. Esse fenômeno que
ocorreu no estado foi causado por um conjunto de fatores, não foi só o El Niño
o responsável. Os outros fatores que contribuíram foram: a grande anomalia
positiva de temperatura do Oceano Atlântico na região equatorial, maior
anomalia dos últimos 35 anos; uma área de alta pressão no centro do Brasil que
formou um bloqueio atmosférico, impedindo o avanço de frentes frias e a
formação de áreas de baixa pressão no norte da Argentina. Todos esses fatores
juntos fizeram toda a umidade que evapora no Atlântico e na Amazônia
chegarem como grandes rios aéreos sobre o Rio Grande do Sul, como se uma
mangueira gigante de água ficasse regando sem parar o nosso estado. Podemos
ver que os responsáveis foram o clima (oceanos aquecidos) e o tempo
(bloqueio atmosférico), onde juntos causaram esse desastre no estado. Isso
que aconteceu é raro, nunca houve um período tão longo de enchentes como
neste ano.
Estamos vivendo uma situação de desastre, ninguém imaginava que isso
pudesse acontecer. Podemos observar o despreparo da maioria das pessoas no
enfrentamento das enchentes. Também estamos vendo uma solidariedade
gigante, vinda dos gaúchos, dos brasileiros e do mundo inteiro, na ajuda aos
atingidos pelas enchentes.
Depois desta atualização do clima no estado vou seguir falando das
lavouras e os últimos acontecimentos. As lavouras de soja estão em grande
parte colhidas, com um bom rendimento, mas ainda tem locais onde a colheita
não terminou. Aproximadamente 10% da área de soja do estado falta ser
colhida. Em muitos locais a soja apodreceu e nem vai ser colhida. É muito difícil
ver a soja apodrecer na lavoura depois de pronta. Isso raramente acontece. Eu
lembro do ano de 1983, ano que também por excesso de umidade e calor
perdemos parte da soja na hora da colheita. O ano de 1983 sempre é lembrado
como “ano da soja chuvada”. Agora em 2024 um cenário parecido se repetiu.
Mudaram as cultivares, naquela época as cultivares plantadas eram de ciclo
longo na maioria. Nos últimos anos as cultivares plantadas são de ciclo mais
precoce, mas o atraso do plantio por excesso de umidade atrasou a colheita
que coincidiu com o excesso de chuvas.
Nos anos parecidos do passado, em junho, a correlação das chuvas com
os oceanos é pequena, sendo um pouco correlacionada com oceano Atlântico
Sul, não tendo correlação com o oceano Pacífico, isso dificulta a
previsibilidade quanto as precipitações.
No Niño 3.4 a temperatura terminou o mês de maio com uma anomalia
positiva de +0,1°C e no Niño 1.2 está em torno de -1,1°C, então terminou o mês
no patamar de neutralidade. No Lado do Atlântico as anomalias de temperatura
terminaram o mês de maio com águas em uma neutralidade na costa sul do
Brasil e com grandes anomalias positivas na costa do sudeste e nordeste do
Brasil. Eu acredito que a média de precipitação no mês de junho aqui na região
deve ficar entre 100 e 150 mm, mas como quase não tem correlação com os
oceanos é difícil prever. A previsão é de pouca chuva na primeira quinzena do
mês, isso pode fazer as chuvas ficarem abaixo da média para o mês.
A média de precipitação do mês de junho dos últimos 34 anos é de 172
mm. O ano com maior precipitação aqui foi o ano de 1990 com 338 mm. O
segundo ano mais chuvoso foi o ano de 2005, com 337 mm, sendo que o ano
que menos choveu foi o ano de 2016 com 20 mm.
Outro dado interessante que quero colocar aqui são os meses, que em
ano de La Niña pode ocorrer chuvas diárias acima de 100 mm em um dia, isso
aconteceu nos meses de setembro e outubro. Nos meses de junho, julho,
agosto, novembro e dezembro a probabilidade é muito baixa de isso ocorrer.
A previsão do ECMWF (modelo europeu), é de precipitações próximas
a média no estado até novembro de 2024, enquanto a previsão do IRI é de
chuvas abaixo da média para todo o Brasil de junho a agosto de 2024 para o
sul é de chuvas bem abaixo da média até novembro para o centro e norte do
Brasil as precipitações ficam próximas da média a partir de setembro. A
previsão dos dois modelos, americano e europeu, é de temperaturas acima
da média de junho a novembro de 2024 no Brasil.
A seguir vou falar um pouco da tendência para o inverno e para
a primavera de 2024
A tendência é de os volumes de chuva gradativamente irem diminuindo
durante o inverno. Com probabilidade grande de o mês de novembro ter
precipitações bem abaixo da média no estado, o que vai ser bom para a colheita
das culturas de inverno e implantação da cultura da soja.
Quantos as temperaturas, a maior probabilidade é de ocorrência de geadas
em junho, julho e início de agosto aqui na região. Essa tendência também serve
para a região de cruz Alta e São Luiz Gonzaga. Para o mês de setembro é muito
baixa a probabilidade estatística de ocorrer geadas nesses locais. Podem ocorrer
na região nordeste do estado, como Vacaria.
A tendência é de as temperaturas ficarem abaixo da média até o mês de
outubro, com dias ensolarados e noites mais frias. Isso é bom para as culturas
de inverno e para o milho irrigado. Olhando dados estatísticos podemos
ver que em anos de La Niña nunca tivemos perdas de trigo por geadas em
setembro aqui na região. Sabemos que isso pode acontecer, mas seria um
evento fora da curva na estatística.
Fonte:Mauro Costa Beber – Brasitália