Notícia
Entrevista especial com Dom Jacó Hilgert, uma trajetória de fé e devoção a Deus
Com muita alegria, a Diocese de Cruz Alta se prepara para comemorar os 90
anos de seu bispo Emérito, Dom Jacó Hilgert, em uma celebração a ser realizada no
dia 24/01, às 10h, na Catedral Divino Espírito Santo. Em seguida, Dom Jacó
recepcionará familiares e amigos em um almoço de confraternização, por adesão, na
Casa de Etnia Alemã, no Parque de Exposições. Ele pede que aqueles que desejarem
levar presente que o façam em forma de doação em valores que serão doados ao Asilo
Santo Antônio, onde é capelão.
Chegar aos 90 anos com disposição, lucidez e em plena atividade, não é tarefa
fácil. Mas o Bispo Emérito da Diocese de Cruz alta, Dom Jacó Hilgert, parece ter
encontrado a “receita” certa. Com simplicidade, bom humor, além de muita fé e amor
de Deus no coração, Dom Jacó vem trilhando sua trajetória de vida. Prestes a completar
90 anos, faz questão de celebrar missas no Monumento de Fátima, dividindo seu tempo
com uma de suas paixões, os programas de rádio, sendo um deles diário, pela Rádio
Cruz Alta AM e outros semanais, na Rádio Sulbrasileira, em Panambi e a rádio
Progresso de Ijuí.
Nascido em Harmonia, no dia 27 de janeiro de 1926, em uma família humilde de
agricultores, numerosa e profundamente religiosa, Dom Jacó teve interesse pela vida
sacerdotal muito cedo. Como ele mesmo conta, as motivações foram muitas. Houve
razões humanas, o tio, Monsenhor Leopoldo Hoff, irmão de sua mãe, era padre em
Porto Alegre. A admiração pelo trabalho desenvolvido pelo tio foi um dos motivos que
pesaram em sua decisão. “Eu queria ser um padre assim como ele, para trabalhar numa
paroquia”, conta. Além do tio, outros três primos optaram pela vida sacerdotal. “Lembro
que eles eram muito bem acolhidos, muito bem quistos pelas pessoas, o que me
chamava atenção. Certamente, serviram de exemplo para mim”.
Dom Jacó, lembra, ainda, que na paróquia a qual pertencia em Harmonia, havia
um pároco muito zeloso, que movimentava as vocações sacerdotais e religiosas. “Ele
dava muito incentivo. Isso também me encantou”, diz.
Porém, mais forte que tudo isso foi o chamado de Deus. “Misterioso como todo o
chamado, veio no silêncio, no interior, mas muito forte. Foi quando decidi ir para o
seminário para ser padre”.
As dificuldades
“Deixar a família foi o mais difícil”, lembra Dom Jacó ao falar de sua escolha.
Uma família grande, de 12 filhos, todos muito unidos. Mas além desta, foi preciso
superar outras dificuldades, como a falta de dinheiro para custear os estudos. “Era uma
época em que os pequenos agricultores, no caso de meu pai, passaram por muitas
dificuldades. Colhiam bem, mas aquilo que eles tinham para fazer dinheiro havia
perdido o valor. Não tinha comprador para os produtos. Então eu via a pobreza. Não
havia falta de alimento, pois nunca nos faltou, era farta, mas não tinha dinheiro para
pagar os estudos, pagar o seminário. Meu pai sozinho não tinha recurso para isso. Então
os parentes todos ajudaram. Assim pude começar os estudos no seminário”.
O chamado de Deus foi ouvido, também, por outras duas irmãs de Dom Jacó,
uma mais velha que ele e outra mais nova, que também optaram pela vida religiosa.
“Duas tias minhas também eram religiosas. Elas deram todo o apoio para que nós
perseverássemos em nossas escolhas. Na época, muito jovens, víamos mais o mundo do
que o Reino de Cristo, o que facilitava empreendermos em outras questões em prejuízo
a vida religiosa. Felizmente superei todas estas dificuldades, e continuo hoje aqui,
firme, como padre”, enfatiza.
“Ficamos padres para servir a nossa Igreja”
Quando o assunto é a vida sacerdotal, Dom Jacó é direto: “Estou muito contente
com a minha vida. Gostaria que todas as pessoas, que seguem uma vocação, também,
pudessem ser fiéis, pudessem sentir a alegria de servir a Cristo, seja neste estágio de
vida ou no outro. Nem todos são chamados para serem padres ou religiosos, mas os que
seguem essa vocação, que seja para realmente servir a Cristo, servir a Igreja, e não
procurar o seu bem estar pessoal, seja econômico ou social. Nós ficamos padres para
servir a Igreja, para atender as necessidades de todo o rebanho de Cristo, sem olhar se é
rico, se é pobre, se é idoso, criança ou jovem. Todos merecem a mesma atenção do
padre, como Jesus deu atenção a todos. Ficamos padres para servir o povo santo de
Deus”.
Momentos especiais
Para Dom Jacó, o primeiro momento especial de sua vida foi a Ordenação
Sacerdotal, que aconteceu no Seminário Maior de São Leopoldo, onde fez a Faculdade
de Filosofia e Teologia. “Neste dia estavam presentes meus pais, meus irmãos, enfim,
todos os meus familiares. Lembro que ao terminar a cerimônia, ao sair da igreja todos
meus parentes me aguardavam. Na hora quis dar um abraço no pai, mas ele me disse:
'Espere! Queremos, primeiro, receber a sua bênção de neo-sacerdote'. Todos se
ajoelharam e lhes dei a minha bênção. Realmente me emocionei muito. Isso nunca vou
esquecer”, conta ele, emocionado.
Dom Jacó lembra que, com ele, se ordenaram mais 4 padres. Destes, hoje,
somente ele ainda vive, e, dos colegas de curso, apenas um, o Monsenhor Maximo
Benvegnu, que está residindo com familiares em São Domingos. Dom Jacó faz visitas
seguidas ao amigo, já que este não tem mais condições de sair de casa. “Temos a mesma
idade, com a diferença de 5 dias, sendo ele mais novo. Por isso, sempre brinco com ele,
que tem que me respeitar porque sou mais velho cinco dias”, brinca o bispo Emérito.
Outro momento importante foi nas premícias sacerdotais, sua primeira missa, que
celebrou em sua terra natal. “Foi um dia muito bonito. A igreja estava lotada, era 8 de
dezembro, dia da Imaculada Conceição e fizemos a festa de maneira muito popular,
bem simples. Não foi dentro de salão, foi no pátio da casa de meus pais. Lá todos foram
acolhidos e saíram felizes”, diz.
Também tem como momento importante o dia em que foi escolhido para ser
Vigário Episcopal, em Camaquã. “Nas funções, eu era um bispo sem ser ordenado”,
brinca ele, contando que as funções de um Vigário Episcopal equivalem as de um bispo
auxiliar. Quando tomei posse, também, teve muita gente. Então eu atendia toda aquela
região de Guaíba até Camaquã. Eram ao todo 22 paróquias e muitas comunidades.
Por fim, o grande momento foi quando recebeu a consulta de Roma, para saber se ele
aceitava ser bispo. “Nunca tinha pensado ou sonhado com isso. Foi uma surpresa muito
grande. Na época me consultei com outros bispos, me emocionei, me lembro bem disso,
e por fim, dei minha resposta dizendo que aceitava. Aí saiu a minha nomeação como
bispo de Cruz Alta. Foi a primeira e a única diocese que trabalhei como Bispo. Esse dia,
evidentemente foi o máximo na minha vida. Sigo hoje, ainda, com esta mesma emoção,
como bispo Emérito de nossa Diocese. Hoje estou velho, trôpego, mas ainda consciente
e pronto para atender as pessoas sempre que puder”, diz.
Uma Paixão
Comunicador por natureza, Dom Jacó admite ter paixão pelo rádio, estando os
seus programas de rádio entre as atividades que mais gosta. “Adoro fazer o meu
programa de rádio. Tenho, hoje, 59 anos de programa de rádio diários, além dos
programas semanais de outras rádios”, afirma.
Nos anos em que passou em Camaquã sempre teve programa de rádio. No seu
primeiro ano de padre, deu a bênção à rádio Montenegro, quando estava sendo
inaugurada. “O pároco tinha saído de férias, então fui eu quem dei a bênção. Já, nesta
oportunidade, me convidaram para fazer um programa diário. Depois de lá, fiquei
somente 4 anos longe das rádios, quando assumi a minha primeira paróquia em Canoas,
pois lá eu não tinha rádio para falar. Mas estes foram os únicos quatro anos, em 63 anos
de padre”, conta.
Preparando para encontrar com o criador
“O sonho que tenho é me preparar bem para me encontrar com o bom Pastor e entregar
toda minha vida a Deus da mesma forma que a recebi. Espero poder morrer na graça de
Deus e ser acolhido no reino dos céus. Isso é um voto que todos os Cristãos deveriam
ter, pois a nossa vida não é perene neste mundo e nem atingimos a felicidade completa,
mas, queremos, ainda assim, servir a Deus e ao nosso bom pastor Jesus Cristo. Também
como pastor do rebanho de Deus, gostaria de poder, ainda servir, com os meus 90 anos,
a quem quiser ser atendido, seja para um consulta, uma missa. Pois ainda estou lúcido,
tenho condições de celebrar. Isso me alegra muito e agradeço a Deus por isso”, diz.
Mensagem
“Eu gostaria que, ao entrarmos agora no ano santo, no dia 08 de dezembro, que todos
pudessem formar o grande rebanho de Cristo. Que não houvesse nenhuma ovelha
perdida. Se alguém se afastou da Igreja, que o caminho esteja aberto para ser bem
acolhido, pois afinal de contas todos nós cristãos somos alimentados pelos mesmos
ensinamentos da Bíblia e seguimos todos os ensinamentos de Jesus Cristo. Que não seja
apenas pelo meu aniversário, mas que seja um dia que abrimos o nosso coração para
Deus, para agradecer e nos dispor a sermos ovelhas de seu rebanho”.
Data da publicação: 2016-01-06