É na dificuldade que crescemos. A frase, que sugere que o crescimento e a evolução são resultados diretos das dificuldades que enfrentamos e superamos, pode resumir a jornada de migração do acervo de 10 milhões de processos que tramitam no Poder Judiciário gaúcho para o ambiente de nuvem. Por si só, a operação é complexa, porém, ela foi realizada em meio à maior tragédia climática do RS, e em tempo recorde: 21 dias.
A ação, embora envolva o uso de tecnologias de ponta, bem como os benefícios que se sucederão a partir dela para o futuro do Judiciário Digital, foi marcada por uma atuação essencialmente humana. Da decisão arrojada de execução do plano de emergência, por parte dos membros da Administração do TJRS, ao empenho de equipes que superaram até mesmo as dificuldades pessoais enfrentadas naquele momento dramático para garantir o êxito da operação.
Com o avanço das águas do Guaíba pela área central de Porto Alegre, em 03/05/24, logo houve a interrupção da energia elétrica. Os datacenters instalados nos prédios do Judiciário (TJ e Foro Central II, no bairro Praia de Belas) foram desligados, assim como os equipamentos da Procergs e do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF), o que inviabilizaria em breve o funcionamento do sistema eproc, principal plataforma jurisdicional do TJRS.
“Nos reunimos e a decisão que tomamos foi que não iríamos suspender o serviço. Pensamos que, naquele momento, o Judiciário tinha que estar presente. Precisávamos manter o sistema em funcionamento para prestar o atendimento básico necessário à população atingida”, afirma o Desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, Presidente dos Conselhos de Inovação e Tecnologia (CONINT) e de Comunicação Social (CCS) do TJRS.
Avanço das águas pelas ruas do bairro Praia de Belas, na região central de POA, foi uma das dificuldades dos servidores para acessarem o Foro Central IICréditos: Arquivo Pessoal
Operação emergencial
O eproc já havia passado por uma prova de conceito (POC, Proof of Concept, em inglês) que apontou o seu bom desenvolvimento no ambiente de nuvem, mas o plano era começar a implantá-lo em 2025. A partir do dia 06/05/24, teve início a migração de 200 terabytes de dados. O desafio era manter ligado o gerador do Foro Central II, para que o eproc seguisse em funcionamento. O equipamento está instalado na área externa do estacionamento, no 7º pavimento do prédio. A ação emergencial envolveu servidores de diversos setores do TJRS e muita união de esforços, com equipes atuando de barco em torno do prédio para levar estrutura aos colegas, como alimentação e outros insumos. “Não tínhamos nenhuma bomba para transferir o combustível dos tambores para os geradores. Tivemos que bolar um sistema de abastecimento manual”, lembra o Engenheiro Marcelo Azambuja.
“Era um por todos e todos por um. Fizemos as contas para definirmos de quanto em quanto tempo era necessário colocar combustível no gerador para que ele seguisse funcionando”, relembra o Tenente Jurandir Fortes, do Serviço de Inteligência do Judiciário. O Policial Judicial Vinícius Guazzelli Gonzaga conta que eles calcularam o consumo diário de combustível necessário para manter o gerador ativo por 24h. “Constatamos que era preciso mais de 200 litros a cada 6 horas, ou seja, 800 litros de óleo diesel por dia”. O Oficial de Transporte Sérgio Gomes Braga carregou os primeiros tambores de combustível até o gerador. “Foi um dia especial, quando a gente vê que está unindo forças e dando o melhor para que a missão seja bem-sucedida. Vi muita força de vontade do pessoal do TJ, dos servidores que ali estavam”.
Enquanto isso, as equipes da Direção de Tecnologia da Informação e Comunicação (DITIC) trabalhavam para manter funcionando o sistema necessário para que a Justiça Estadual seguisse operando, com atendimento das medidas emergenciais, garantindo a continuidade da prestação de serviço. “O eproc é um gigante do tamanho do Judiciário”, afirma o Diretor do Departamento de Projetos Especiais da DITIC, Clairton Buligon. Para ele, a força-tarefa teve um misto de sentimentos, pois, bem naquela semana quando a migração começava, o servidor recebeu a notícia de que o pai, que morava em Catuípe, havia falecido. Ele, então, precisou se afastar e começou outra jornada, a de tentar chegar a tempo à despedida do pai. Foram 19 horas de viagem, em razão de bloqueios em estradas e rodovias e de superengarrafamentos. “Esse foi um momento muito difícil. Mas também me deu forças, acreditei que conseguiria chegar. A gente não pode desistir mesmo que os outros digam que não vai dar certo”, afirma.
As equipes técnicas se mantiveram reunidas para alinhar a migração do eproc para a nuvemCréditos: Arquivo pessoal
Judiciário Digital
O Desembargador Antonio Vinicius avalia que a medida emergencial antecipou a aproximação do Judiciário Estadual de um novo mundo tecnológico. “Começamos a tratar com as tecnologias mais avançadas do mundo, que jamais teríamos com os nossos datacenters físicos. Essa abertura que hoje propicia estarmos falando de tecnologias, como inteligência artificial, por exemplo, que nos coloca em outro patamar de atendimento jurisdicional, que nos permite o desenvolvimento de ferramentas que auxiliem em diversas atividades”, considera o magistrado.
Para a Diretora da DITIC, Vanessa Barbisan Pires, a migração do eproc representou, naquele momento, a manutenção do acesso à justiça a toda a população gaúcha, grande propósito da operação. “Ao final do ano de 2024, foi possível expandir e iniciar de forma mais consolidada soluções de inteligência artificial, resultando no recente lançamento da plataforma GAIA. Traçando um paralelo com o Programa Judiciário Digital, um ano após seu lançamento, ocorrido em dezembro de 2023, já contávamos com entregas importantes e significativas em quatro dos sete eixos do programa”, afirma a Diretora.
Superados os desafios, ato de consolidação da migração foi realizado no gabinete da Presidência do TJ, no Palácio da Justiça, que sediou os trabalhos da Administração durante a enchenteCréditos: Eduardo Nichele – DICOM/TJRS
“Estamos aproveitando essa crise para tirar dela a possibilidade de crescermos ainda mais, de melhorarmos a nossa capacidade de atendermos à jurisdição. Acredito que, muito em breve, tenhamos capacidade de entregar aos nossos operadores o melhor da tecnologia existente no mundo, em termos de produção, de auxílio, de produção de trabalho na área jurisdicional e desenvolvendo, na sequência, o melhor para a área administrativa”, estima o Desembargador Antonio Vinicius.
Confira amanhã: A superação e a força que vêm do Interior gaúcho
