Notícia
Durante todo o mês, a campanha Setembro Amarelo promoveu atividades com profissionais de Saúde e comunidade em geral no incentivo a falar sobre a causa da morte de mais de mil gaúchos anualmente: o Suicídio. A partir da nova orientação, tanto o público quanto profissionais que lidam com esse assunto frequentemente, sejam eles servidores da Saúde ou da Comunicação, foram orientados sobre a forma mais adequada de tratar essa ameaça invisível. Encerrando as atividades da campanha, o primeiro Fórum Municipal de Prevenção ao Suicídio mostrou que a comunidade está engajada no assunto. Com lideranças locais, servidores, profissionais da Saúde e até alunos da Universidade Regional do Noroeste do Estado (Unijuí) e Colégio Tiradentes, o público lotou o auditório do Hospital de Caridade de Ijuí (HCI) para debater estratégias e conversar sobre o tema, até então, considerado um verdadeiro tabu pela maioria.
O público presente pode prestigiar, na ocasião, a fala do psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Colmeia, Bruno Luiz Guidolin, que comentou sobre os sinais de alerta expressados por uma possível situação de risco, assim como onde procurar ajuda a nível local, regional e Estadual. Ele também revelou que, para cada 100 mil habitantes, ocorrem 7,5 casos de suicídio, sendo, em sua maioria, cometidos por homens.
A segunda palestrante da tarde foi a jornalista e professora de Comunicação na Unijuí Lara Nasi. Na oportunidade, ela falou sobre como abordar o assunto através dos meios de comunicação, obedecendo, sempre, a intimidade de um caso isolado. Conforme a professora, a orientação é evitar tratar de situações específicas, visando não expor o sofrimento da família, bem como para não incentivar novos casos.
Também foi palestrante na tarde desta sexta-feira o agente comunitário de Saúde da Estratégia de Saúde da Família (ESF) Meio Rural, Sandro Arnaldo Beck. Com o apoio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o evento teve entrada gratuita. Além disso, também fizeram parte do Setembro Amarelo as ações que vêm ocorrendo através do projeto Percursos Formativos na Rede de Assistência Psicossocial (Raps): Intercâmbio entre Experiências.
Vamos falar sobre isso
"Só ri de uma cicatriz quem nunca foi ferido". Em 1595, William Shakespeare era um dos primeiros a romantizar o suicídio, colocando o tema em debate mas, em contrapartida, criando um contexto puramente ficcional para o desenrolar da trama. Costumávamos pensar e tratar o assunto como uma realidade muito distante da nossa, que só existia na literatura. Não éramos nenhum Romeu. Menos ainda uma Julieta. Somente hoje, quase quatro séculos depois, percebemos que os Romeus e as Julietas sempre estiveram ao nosso lado, pedindo apenas a nossa compreensão.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, a cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo. No Brasil, são registrados 32 casos por dia. Os números alertam para um problema que sempre esteve aqui, mas nunca fora tratado com tanta seriedade ou empatia como agora. Com suas primeiras atividades realizadas em 2014 e concentradas em Brasília, o Setembro Amarelo, iniciado no Brasil em uma parceria do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), ganhou maior expressividade nacional apenas em 2015. A partir da campanha, políticos, cidadãos e jornalistas de todo o País foram incentivados a "falar sobre isso".
Por um código ético, o assunto sempre fora evitado por repórteres e editores de qualquer veículo. Considerado um tabu, o suicídio também representava algo muito íntimo para se abordar. Mesmo sem uma ampla divulgação desses casos, os boatos sempre corriam boca a boca, misturando-se com muitos conceitos populares já estereotipados pela sociedade há décadas. Até então, parte da população ainda trata doenças como depressão, bipolaridade, borderline, entre tantas outras que podem estimular um comportamento suicida, como simples falta de maturidade e não como o que realmente representam: um problema de saúde pública.
Há pouco tempo atrás, o câncer e o HIV também eram temas cercados por tabus e, através do esforço coletivo, ampliou-se o conhecimento, tratamento e prevenção sobre estas doenças. Da mesma forma, é através da conscientização e estímulo ao debate sobre o assunto que as campanhas ganham força no combate e na prevenção deste cenário. Ao fugir do assunto, por medo, desconhecimento ou puro preconceito, poucos realmente prestam atenção nos sinais de que uma pessoa ao seu lado pode estar com ideias suicidas.
1. Pedidos de ajuda
Frases como "eu quero morrer", às vezes, não são "da boca pra fora". Existe um senso comum de que pessoas que o fazem querem, realmente, chamar a atenção para si mesmas e não estão falando sério. No entanto, há momentos em que é preciso estar atento a estes pedidos de ajuda, principalmente quando acompanhados por algum dos itens abaixo;
2. Mudanças inesperadas
Algumas experiências na vida podem ser traumáticas o suficiente a ponto de desencadearem as mais diversas reações entre indivíduos. Quando não estamos preparados para elas, também não conseguimos controlar nossas formas de lidar com a situação, podendo este ser o estopim para vários problemas de saúde. Uma pessoa que já apresenta comportamento depressivo ou suicida dificilmente saberá como encarar essas mudanças.
3. Uso de drogas
Dados indicam que, entre as principais causas do suicídio, envolvem-se fatores como depressão ou consumo excessivo de álcool e drogas. A maioria dos psicólogos e psiquiatras concordam que a própria demanda por essas substâncias tem sua origem em experiências traumáticas ou, por mais simples que pareça, em uma desilusão amorosa ou individual. A fim de fugir da própria realidade, muitos se entregam a prazeres momentâneos, seguidos por inúmeros outros problemas de saúde e, em vários casos, por suicídio.
4. Adolescência
As taxas de suicídio entre os jovens brasileiros, conforme estatísticas, aumentaram mais de 30% nos últimos dez anos. No entanto, o comportamento inconsequente e introvertido é geralmente atribuído à fase da adolescência, encobrindo, muitas vezes, uma possível doença mental. A falta de interesse, considerada muito comum entre os adolescentes, também pode indicar uma depressão severa.
5. Distúrbios de humor
Pessoas que já possuem ou manifestam o desejo de cometer um suicídio, muitas vezes, simulam uma repentina melhora para ficarem desassistidos. Fique atento se uma pessoa com comportamento depressivo ficar subitamente alegre, e acompanhe-a para garantir que não tentará tirar a própria vida.
O que fazer?
Segundo a OMS, a esperança é que nove em cada dez casos de suicídio possam ser prevenidos. Para isso, é necessário prestar atenção a algum destes sintomas básicos. Caso você reconheça algum dos padrões de comportamento suicida descritos abaixo, talvez já esteja na hora de agir.
- Pessoas suicidas normalmente remoem pensamentos obsessivamente;
- Elas normalmente se sentem desesperançosas e não acreditam que haja outra alternativa além da morte;
- Elas veem a vida como algo sem significado ou se julgam incapazes de controlá-la;
- Pessoas com tendências suicidas normalmente descrevem uma sensação de névoa nos pensamentos que dificulta a concentração;
- Elas normalmente sofrem de alterações de humor extremas, bem como experimentam raiva ou sentimento de vingança de forma desproporcional;
- Normalmente, elas sofrem com níveis altos de ansiedade e costumam ficar irritadas frequentemente;
- Pessoas suicidas experimentam sentimentos fortes de culpa ou vergonha, muitas vezes sentindo e expressando serem um fardo para os demais;
- Comportamentos irresponsáveis ou perigosos também indicam uma tendência suicida, uma vez que essas pessoas já não têm medo de correr riscos como uso excessivo de drogas; direção imprudente ou sexo sem proteção;
- Muitas vezes, o desinteresse pelo sexo também pode ser um sinal;
- Elas têm dificuldade para tomar decisões comuns;
- Demonstram falta de energia e costumam ficar na cama o dia inteiro;
Na dúvida, aborde a pessoa e entre no assunto de forma direta. Diga que está preocupado e pergunte se a pessoa está pensando em cometer suicídio. Caso ela diga sim, o próximo passo é perguntar quais são os seus planos para tal. Se a resposta for afirmativa, ligue para a emergência imediatamente, pois uma pessoa que já elaborou planos para se suicidar precisa de ajuda imediata. É claro que, em algumas situações, o indivíduo não se sentirá confortável para falar sobre o assunto e, nesta hipótese, a pior resposta que você poderá receber será um "Estou bem".
Ao conversar com a pessoa, evite piorar a situação. Frases como "Tudo ficará bem" ou "Você tem sorte por tudo o que tem" podem aumentar a culpa ou a vergonha dela. Também evite julgar os motivos dessa pessoa, caso contrário, ela não se abrirá para você ou achará que não a leva a sério. Deixe de lado comentários como "As coisas não estão tão ruins" ou "Você não deveria se machucar".
Onde procurar ajuda?
O Centro de Valorização da Vida promove ações de apoio emocional pela prevenção do suicídio desde 2015, com o atendimento em todo o território do Rio Grande do Sul pelo telefone 188. São diversos voluntários que atendem gratuitamente todas as pessoas que precisam conversar, sob total sigilo. Também é possível entrar em contato por e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias. Por ano, são realizados mais de um milhão de atendimentos intermediados por cerca de dois mil voluntários em 18 estados e no Distrito Federal. Para aqueles interessados em se voluntariar, é necessário ter mais de 18 anos de idade e pelo menos quatro horas disponíveis por semana. Para ser um plantonista do Programa de Apoio Emocional do CVV você precisa participar de um curso gratuito de preparação. O cadastro pode ser encontrado em www.cvv.org.br
Em Ijuí, o amparo a vítimas de depressão ou pessoas em situações como essa é feito através da Casa de Auto Mútuo Ajuda (AMA), localizada na Rua Floriano Peixoto, 642.
Também tenha em mente o fato de que aproximadamente 25% das vítimas de suicídio não exibem sinais óbvios ou comportamentos de risco, logo, esteja sempre atento e, quando necessário, converse com a pessoa. Se possível, apenas ouça o que ela tem a dizer. Ao se abrirem com alguém, estas pessoas têm a oportunidade de descarregar qualquer peso que possam estar levando em sua consciência e, além disso, de terem seus anseios atendidos pela simples compreensão de uma segunda opinião. E se você está experimentando algum dos sentimentos descritos aima ou conhece alguém que apresenta algum destes sinais, ligue imediatamente para a emergência, pelo número 190.
Data da publicação: 2016-09-30