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Novo estudo arqueológico revela como os Guarani se dispersaram pelo Sul da América do Sul 
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Foram analisadas 228 datas de radiocarbono e 85 de termoluminescência, permitindo um refinamento da cronologia da expansão

 

A história da humanidade é marcada por grandes movimentos migratórios que moldaram sociedades, culturas e territórios. Entre essas migrações, a expansão dos povos Guarani na América do Sul se destaca como um fenômeno de amplo alcance.

 

Partindo da região sudoeste da Amazônia, os Guarani se espalharam pelo sul do continente, alcançando a Bacia do Prata e o litoral atlântico do Brasil em um período relativamente curto. Essa movimentação, que teve início por volta de 1500 anos atrás (500 d.C), foi impulsionada por fatores culturais, econômicos e ambientais e deixou um legado arqueológico e linguístico que vem sendo estudado por pesquisadores de diferentes áreas acadêmicas.

 

Um recente estudo buscou investigar como os Guarani se dispersaram pelo Sul da América do Sul. A pesquisa foi publicada na Archaeological and Anthropological Sciences e apresenta uma análise detalhada sobre a expansão dos Guarani utilizando métodos estatísticos avançados para compreender a cronologia e as dinâmicas do processo migratório. A lista dos pesquisadores, que inclui brasileiros, franceses, argentinos e uruguaios, e as instituições envolvidas, pode ser consultada ao fim desta notícia.

 

A Universidade do Vale do Taquari – Univates está representada pela professora doutora Neli Teresinha Machado, que atua no Laboratório de Arqueologia – Museu de Ciências e no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD); e por Fernanda Schneider, doutora pelo PPGAD, pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e do Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano de Buenos Aires/Argentina.

 

Origem e primeiros passos da expansão

 

Os Guarani fazem parte da grande família linguística Tupí-Guaraní, que se originou na região da Amazônia. Estudos arqueológicos e linguísticos indicam que essa família começou a se diversificar há cerca de 2500 anos. A partir do sudoeste amazônico, os Guarani iniciaram uma expansão territorial que os levou a colonizar vastas áreas, aproveitando-se da ampla rede de rios da região para facilitar sua mobilidade.

 

Através de uma combinação de deslocamento por canoas e avanço por terra, os Guarani gradualmente ocuparam regiões do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Essa expansão pode ser dividida em quatro fases principais, cada uma marcada por padrões distintos de assentamento e interação com outras populações.

 

Cultura e adaptação ao novo território

 

Os Guarani eram horticultores, mas também caçavam e coletavam, , e seu modo de vida estava intimamente ligado ao cultivo de plantas como mandioca, milho e batata-doce. Sua tradição cerâmica é um dos traços mais distintivos de sua cultura material, caracterizada por vasos com padrões geométricos policromos e superfícies corrugadas.

 

Ao longo da expansão, os Guarani se adaptaram às novas condições ecológicas. A análise isotópica dos restos humanos e vegetais têm revelado adaptações na dieta, indicando a incorporação de novos alimentos conforme os grupos ocupavam diferentes ecossistemas. No litoral atlântico, por exemplo, incorporaram frutos do mar à sua dieta. O mesmo aconteceu com plantas incorporadas ao longo dos novos territórios acessados. Essa adaptação ajudou a garantir a continuidade da expansão e a sobrevivência em ambientes variados.

 

Suas aldeias eram geralmente estabelecidas às margens de rios, permitindo fácil acesso aos recursos naturais e facilitando a conexão entre comunidades distantes. Para o os Guarani, exímios canoeiros, as redes fluviais serviram como uma importante via de deslocamento.

 

Desafios e conflitos

 

A expansão Guarani não ocorreu sem desafios. O contato com outros grupos indígenas frequentemente resultava em relações complexas, que podiam incluir alianças e trocas comerciais, mas também conflitos. Em algumas regiões, fortificações e paliçadas foram erguidas para proteger aldeias de ataques rivais.

 

Durante o período colonial, a chegada dos europeus alterou drasticamente a história Guarani. O contato com missionários jesuítas levou à fundação das “Reduções”, aldeamentos religiosos que buscavam converter os indígenas ao cristianismo. Embora essas reduções tenham proporcionado certa proteção contra a escravidão, também significaram a perda de autonomia para muitas comunidades Guaraní.

 

Legado e importância atual

 

Hoje, a influência da expansão Guarani pode ser vista na permanência da língua Guaraní, que ainda é falada por milhões de pessoas no Paraguai, no Brasil e em outras partes da América do Sul. O estudo arqueológico da expansão Guarani continua a revelar novas informações sobre como esses povos conseguiram se espalhar rapidamente por um território tão vasto.

 

Compreender a expansão Guarani é importante para reconstruir a história das populações indígenas sul-americanas e reconhecer a resiliência e a complexidade das culturas indígenas, já que seu legado continua vivo, tanto na arqueologia quanto nas comunidades atuais que mantêm suas tradições e identidade.

 

Resultados e dados inéditos do estudo

 

O estudo publicado trouxe avanços ao entendimento da expansão Guarani, assim como propôs correções de erros analíticos antigos, utilizando, para isso, métodos estatísticos rigorosos. Entre os principais resultados, destaca-se a divisão do processo de expansão em fases distintas, baseadas na distribuição espacial dos sítios arqueológicos e na sua cronologia. Foram analisadas 228 datas de radiocarbono e 85 de termoluminescência, permitindo a identificação de quatro fases de expansão Guarani pelo território.

 

A primeira fase foi identificada na bacia do Alto Paraná, entre os anos 500 d.C e 800 d.C, representando o estágio inicial da colonização Guarani para fora da Amazônia. Nessa fase, a quantidade de sítios arqueológicos era discreta e restrita a esta pequena região, provavelmente representando as explorações pioneiras dos novos espaços e baixa densidade populacional.

 

A segunda fase se estende entre os anos de 800 d.C a 1300 d.C, refletindo um ligeiro aumento de sítios em comparação a fase anterior, e uma significativa expansão territorial, quando esses povos passaram a habitar territórios que hoje correspondem a Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, incluindo a Costa Atlântica.

 

Apesar do aumento de sítios, a expansão máxima desses povos só foi notada na terceira fase, entre 1300 d.C e 1600 d.C, um pouco antes da chegada dos colonizadores europeus. Nesse período, os Guarani atingiram a mais ampla cobertura territorial da sua história, com sítios habitados em porções bem ao sul, como no Delta do Rio Paraná e no Rio da Prata, na Argentina e Uruguai, e na região que hoje compreende o Vale do Taquari. Nessa fase, nota-se também o aumento de aldeias em todas as regiões ocupadas, sugerindo um notável crescimento populacional. Sem dúvidas, concluem os pesquisadores, essa fase parece corresponder ao auge da expansão Guarani e da sua densidade populacional. Essa fase só foi modificada com a invasão dos europeus aos territórios indígenas, culminando na modificação da dinâmica social de todo o continente americano.

 

Assim, o pós 1600 d.C inaugura a quarta e última fase, correspondendo ao período histórico e de resiliência dos povos indígenas durante a expansão europeia. Nessa fase, os sítios concentram-se em áreas onde o controle europeu ainda não era efetivo e diminuíram em áreas colonizadas pelos europeus. A expansão Guarani para fora da Amazônia se destaca como uma das mais notáveis migrações documentadas entre populações canoeiras. A expansão provavelmente envolveu uma combinação de deslocamentos de longa distância liderados por populações pioneiras, juntamente com movimentos de média a curta distância. Esse padrão diverso de colonização traz implicações significativas para a arqueologia Guarani, particularmente no que diz respeito à dinâmica de demografia, evolução cultural, inovação e sistemas de aprendizagem dentro da sociedade, e estendem os limites da pesquisa em novas direções empolgantes.

 

Apesar dos resultados importantes, os autores destacam também a necessidade contínua de melhorias nos bancos de dados e nas metodologias de campo e nas coletas de amostras. Para o caso da arqueologia Guarani, em especial, ressaltam que ainda é necessário pesquisar e obter amostras em regiões que possuem pouco ou nenhum estudo arqueológico.

 

Instituições envolvidas na pesquisa

 

– Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET), Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano (INAPL), Buenos Aires, Argentina

– Centro de Memória do Oeste de Santa Catarina e Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), Chapecó, Brasil

– Universidad de La República (Uruguay) – Centro Universitario Regional del Este – Departamento de Sistemas Agrarios y Paisajes Culturales, Rocha, Punta del Este, Uruguai

– Universidade Federal de Pelotas (UFPel) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia (LEPAARQ), Pelotas, Brasil

– Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Instituto Terra e Memória, Centro de Geociências de Coimbra (ITM/CGEO), Coimbra, Portugal

– Espaço Arqueologia, Tubarão, Brasil

– Muséum National d’Histoire Naturelle, França – UMR 7194, Équipe PréTropz, Paris, França

– Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo, Brasil

– Universidade do Vale do Taquari (Univates) – Laboratório de Arqueologia – Museu de Ciências e Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento, Lajeado, Brasil

– Instituto Nacional de Antropología y Pensamiento Latinoamericano (INAPL), Buenos Aires, Argentina

– Universidade da Região de Joinville (Univille), Joinville, Brasil

– Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/SR Santa Catarina, Brasil

– Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), Chapecó, Brasil

 

Pesquisadores responsáveis

 

Daniel Loponte, Mirian Carbonera, Fernanda Schneider, Andrés Gascue, Rafael Guedes Milheira, Marcos César Pereira Santos, Juliano Bitencourt Campos, Jedson Cerezer, Antoine Lourdeau, Alejandro Acosta, Noelia Bortolotto, Jairo Rogge, Neli Teresinha Machado, Sheila Ali, Maricel Pérez, Dione da Rocha Bandeira, Isabella Muller e Jaqueline Borger.

 

Glossário

 

Confira a explicação de termos técnicos empregados neste texto

 

Arqueologia – Ciência que estuda as sociedades do passado a partir de vestígios materiais, como cerâmica, ossos, ferramentas e construções.

 

Cronologia – Sequência temporal dos acontecimentos; em arqueologia, refere-se à ordem e às datas aproximadas de ocupação de um sítio ou região.

 

Datação por radiocarbono – Técnica científica usada para determinar a idade de materiais orgânicos (como ossos, carvão e madeira) através da medição do isótopo carbono-14.

 

Datação por termoluminescência – Método de datação aplicado a objetos de cerâmica ou minerais, que mede a quantidade de radiação acumulada no material desde que foi aquecido pela última vez.

 

Expansão Guarani – Processo histórico de dispersão territorial dos povos Guarani, que saíram da Amazônia e ocuparam áreas do sul da América do Sul, como Brasil meridional, Paraguai, Argentina e Uruguai.

 

Família linguística Tupí-Guaraní – Grupo de línguas indígenas relacionado por origem comum, faladas em várias regiões da América do Sul.

 

Fases de ocupação (I a IV) – Períodos definidos pelos arqueólogos para organizar a expansão Guarani em etapas, de acordo com os locais ocupados e as datas de cada fase.

 

Isótopos – Variedades de um mesmo elemento químico que diferem na quantidade de nêutrons. Na arqueologia, análises isotópicas ajudam a reconstruir dietas antigas.

 

Material cultural / Cultura material – Objetos produzidos ou usados por um povo, como cerâmica, ferramentas, adornos e armas.

 

Sítio arqueológico – Local onde há vestígios materiais de ocupações humanas antigas.

 

Slip – Revestimento líquido de argila aplicado sobre a superfície da cerâmica antes da queima, usado para dar cor e acabamento.

 

Vasilhas corrugadas – Cerâmicas cuja superfície foi intencionalmente enrugada ou ondulada durante a fabricação, um estilo típico dos Guarani.

 

Tembetá (labrete) – Adorno usado pelos Guarani no lábio inferior, feito de materiais como quartzo, osso ou madeira.

 

Reduções – Aldeamentos organizados por missionários jesuítas, onde grupos indígenas eram reunidos para viver sob regras religiosas e sociais impostas pelos colonizadores.

 

 

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Texto: Lucas George Wendt – UNIVATES

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Política atualizada em 5 de julho de 2023.